terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Diário de "Misto-quente", terceira anotação

É bonita a capa do Misto-quente. O desenho do Robert Crumb não tem picas a ver com o enredo, mas tudo bem. Um bêbado em fim de carreira brigando com um travesti (olha o tamanho do pé) por causa de um telefone. O editor — que, como bom editor, não lê o que publica — pensou: “Bukowski? Põe uma garrafa de uísque na capa, cinzeiro, essas merdas. Ou coloca qualquer coisa do Crumb, Bukowski é associado com Crumb. Agora, dá licença que tenho que coçar o cu e cheirar”.
As cores ficaram bonitas. Vermelho, preto e branco.

— Só.

O texto da quarta-capa é esse aqui:

O que pode ser pior do que crescer nos Estados Unidos da recessão pós-1929? Ser pobre, de origem alemã, ter muitas espinhas, um pai autoritário beirando a psicopatia, uma mãe passiva e ignorante, nenhuma namorada e, pela frente, apenas a perspectiva de servir de mão-de-obra barata em um mundo cada vez menos propício às pessoas sensíveis e problemáticas. Esta é a história que é sem dúvida uma das obras mais comoventes e mais lidas de Charles Bukowski (1920-1994).
Verdadeiro romance de formação com toques autobiográficos, Misto-quente (publicado originalmente em 1982) cativa o leitor pela sinceridade e aparente simplicidade com que a história é contada. Estão presentes a ânsia pela dignidade, a busca vã pela verdade e pela liberdade, trabalhadas de tal forma que fazem deste livro um dos melhores romances norte-americanos da segunda metade do século 20. Apesar de ser o quarto romance dos seis que o autor escreveu e de ter sido lançado quando o autor já estava com mais de sessenta anos, Misto-quente ilumina toda a obra de Bukowski. Pode-se dizer: quem não leu Misto-quente, não leu Bukowski.


Belo texto. Enaltece o romance sem aqueles adjetivos hiperbólicos da Estação Liberdade (“obra fundamental de magnitude sísmica”) e, pasmem, indica que o responsável leu o livro. Inteiro!
E olha que são mais de trezentas páginas.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Diário de "Misto-quente", segunda anotação

Misto-quente é a vida de Henry Chinaski do nascimento à morte, quando se forma e é obrigado a procurar emprego. Como de costume, Bukowski escreve sem muita frescura, seco como um panetone Tommy.
Já seu tradutor...
Alguma força cósmica me diz que Pedro Gonzaga, o tradutor, fez Letras. Talvez sua dissertação de mestrado seja sobre Bukowski e possua o título: “Tessituras do real e imaginário: teor autobiográfico no jogo de luz e sombras imanentes em Charles Bukowski”. O ranço acadêmico é uma coisa dura de tirar. Não sai nem com creolina, o desgraçado. Numa introdução presunçosa, Pedro Gonzaga “eleva” a literatura do Buk, talvez para elevar a si mesmo como estudioso da obra. Não só isso: o livro está pulverizado de notas de rodapé redundantes e dispensáveis.
Queria sair bem na foto? Estuda Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, Clarice Lispector.

Tentei estabelecer uma tradução que mantivesse os abismos abertos, que mantivesse o frescor ainda presente no original, mais de vinte anos depois de sua publicação, uma tradução que resistisse o máximo possível ao dobrar da esquina das décadas que ainda hão de vir.
(p.6)


Mantivesse os “abismos abertos”? Resistisse ao “dobrar da esquina” do tempo?
Ah, truta.

— Tão lindo, isso...

Diário de "Misto-quente", primeira anotação

— O cara estava dirigindo o carro pelo deserto. Percebeu que tinha um outro pulando no meio da estrada. Ele estava pelado, os pés e as mãos amarrados. O cara do carro parou e perguntou: “Ei, camarada, o que aconteceu?”. E o cara respondeu: “Bem, eu vinha dirigindo e aí vi um cretino pedindo carona. Então, eu parei e o filho-da-puta apontou uma arma para mim, me obrigou a tirar a roupa e me amarrou. Depois o filho-da-puta, o sujo, me comeu o rabo!”. “É mesmo?”, perguntou o outro, saindo do carro. “Sim, foi isso que aquele maldito filho-da-puta fez!”, disse o homem. “Bem”, disse o cara abrindo as calças, “acho que hoje não é o seu dia de sorte!”
(p.111)

Misto-quente descobri num sebo em volta da PUC. Eram os idos de 1995, e o mundo queimava em hipocrisia e ódio. Revolucionário, eu puxava fundo a fumaça do baseado e perguntava: “Por quê, por quê?”. Inconformado, vestia roupas coloridas, escutava Bob Marley e ceifava vidas no 007 GoldenEye para Nintendo 64. Praticamente um Rafael Ilha em gestação.
Mas revoltado de grife que se preze precisa de estofo literário. Nos sebos, comprei — alguns, eu roubei — Dostoiévski, Gogol, Tolstói, Hermann Hesse, J.J. Benítez, Erich Von Daniken, James Clavell, Mishima, Balzac, Kafka, Saramago, Ken Follett, Noah Gordon, James Joyce.
E o velho Buk.

— É nóis.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Deus te guie, carteiro amigo

Eis os livros devolvidos em novembro. Publicados com atraso?
Nããão.


Factótum, o livro lido aos quarenta e cinco do segundo.

Misto-quente, manuseado por mãos femininas hidratadas com Natura.

O senhor das moscas, cujo leitor, no melhor estilo Pôncio, se eximiu de comentar.

"Entre na roda", parte III

Não são muitas as resoluções para 2010. São poucas, aliás. Em grandes linhas, emprestar mais livros e aumentar o acervo. Participar do tal “Entre na roda” também seria interessante. Não que alimentemos grandes esperanças — uma dúzia de tiazinhas explicando os prazeres da leitura e uma multinacional doando migalhas —, mas vai saber? Talvez as torradas com patê do coffee break sejam gostosas.
Esta semana, recebemos um e-mail.

De: ononon@poiesis.org.br
Para: diogokaupatez@hotmail.com
Enviada: segunda-feira, 21 de dezembro de 2009 11:50:03
Assunto: Entre na Roda 2010: lista dos selecionados

Caros, bom dia.
Segue a lista dos selecionados para o curso Entre na Roda.
Devido à grande demanda de interessados no curso, foram selecionados 100 currículos para duas turmas de formação em 2010.
O primeiro passo para participar do curso, é encaminhar uma carta de comprometimento da prefeitura/ instituição/ escola/ biblioteca firmando parceria e garantindo a presença do aluno durante todo o curso com a Fundação Volkswagen, CENPEC e Programa "São Paulo: um Estado de leitores" . Enviamos nesse e-mail um modelo dessa carta, que deve ser enviada urgentemente para o endereço: Rua do Triunfo, 301/305, Luz, 01212-010, São Paulo/ SP - aos cuidados de Egle Amato ou Calebe Morais.

Selecionados para o Entre na Roda 2010

Ademir Massayoshi Takara
Aidete França da Silva
Ailton Carlos Santos
Ana Carolina D'Eça Rodrigues
Ana Carolina Helcias Ribeiro de Escobar
Ana Lúcia Baptistella
Ana Paula Correia Neiva
Andrea Akemi Oribe Hayashi
Andréa Pereira de Souza
Andreas Leber
Andreia Pereira
Anelise Mayumi Soares
Angela Cristina Trainotti
Angela Rojo
Araci Marcos Ladeira
Arlete Weffort Bertini
Barbara Boucinha de Almeida Bischoff
Camila Gibin Melo
Carlos de Araújo Otelac
Cecília F. França
Cecília Ferreira da Silva
Célia Regina Cabrino
Claldete Stevanelli Sassi
Clélia Cantos
Cléo da Silva Lima
Clóvis Monconill Pinheiro
Crislayne Darlyenne Gonçalves
Cylmara Tertuliano Mourão Huang
Cynthia Lia da Silva Mendes Paulino
Daniela Alves de Souza
Debora Tiemi Kawasaki
Deborah Arantes
Deusdete Cássio de Jesus
Diana Maria de Morais
Edilena C. Ribeiro da Costa
Edna Bolanho Simões
Edneide do Nascimento Pereira
Elaine Aparecida Silva
Eulalia Maria Camara Lobato
Fabiana Maria de Paula
Fábio A. Cassettari
Fausto Pistore
Fernanda Isabel Bitazi
Flávio Ricardo da Silva
Gloria Liliane Romano
Greycy Camilo Capovilla Furoni
Grinauria Enedina da Silva
Henriqueta Oliveira Marques
Ivanilda Aparecida Solar
Ivone Mosolino
Ivonilde da Silva Gama
Jacqueline Françoise Bressan Neptune
Jean Tadeu de Mello Silva
Joana Alves da Silva
Juranir Maria de Oliveira
Kleber Tadashi Fujihara
Leide Euclides da Silva Pereira
Luiz Antonio Grosso
Lury L. Hirahata
Marcela Coladello Ferro
Márcia Cintra Camargo Rodrigues
Márcia da Silva Santos Fonseca
Marcos Paulo de Passos
Maria Aparecida de Oliveira Gomes
Maria Cecília Coscia Graner
Maria da Cruz Vieira Alencar
Maria de Lourdes Santo
Maria Gorete de Jesus Coutinho
Maria Helena da Silva
Maria Helena Moreira
Maria Salete Victor de Almeida
Marli Zoratto dos Santos
Marta Nosé Ferreira
Mirian Caldeira Corraini
Myrella Cassettari
Nailda Souza Soares
Patrícia Ferraz da Silva
Raimundo Aldeide de Souza
Regina Célia Batista Souza da Silva
Regina Maria Teresa de Azevedo Estrela Alves de Abreu
Roberto Barros de Souza
Rosângela Mantovani
Rosemary Casemiro Machado
Roseneide de Jesus Santana
Sadrac Leite Silva
Sandra Maria Nogueira de Souza
Selma Miranda da Silva
Shirley Machado de Lima
Silvana Aparecida Derobio
Silvia Felipe Ramos Cordeiro
Sonia Maria Vasques Kouyoumdjian
Sonia Remenegildo
Suzete Pereira Lot
Terezinha Amélia Prestes Barros
Valsineire Bueno de Castro
Vanda Benedita Leme Romanha
Vanessa Lima dos Santos
Vera Lúcia do Prado Carvalho
Vera Leny Pastore
Viviane da Silveira Monteiro

Nada do “Luar na laje”. É a vida.
Assim, riscamos um item da lista. Ficamos com emprestar mais livros e aumentar o acervo.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Diário de "Mas não se matam cavalos?", quarta (e última) anotação

— Olha aí, moçada — disse Socks —, ninguém deve ficar de baixo-astral porque as pessoas não estão vindo para a maratona de dança. Demora um pouco para essas coisas pegarem, então decidimos começar com um número especial que com certeza vai lotar a casa. Vejam o que vamos fazer: uma corrida de dérbi todas as noites. Vamos pintar um círculo no chão e todas as noites vocês vão correr em volta da pista durante quinze minutos e o último par da noite será desclassificado. Garanto que isso vai atrair as multidões.
— Também vai atrair os agentes funerários — alguém disse.
(p.29)

Até o momento, ninguém leu Mas não se matam cavalos?. O mesmo acontece com Nosso GG em Havana. Hollywood foi enviado pro primeiro leitor esta semana. Há quatro meses no ar e, dos nove livros disponíveis, três estão pegando mofo. Virgens como a Sandy à espera do Lucas Lima.
Como seria uma corrida de dérbi para atrair leitores? Uma mulher (ah, vá?) que conheci no tal do “Entre na roda” disse que o marido paga pro sujeito ler o livro. Ele paga. Entrega as obras pras pessoas e, no dia do sarau, pergunta: “Quem leu o livro?” O desgraçado que levantar a mão ganha dez conto.
Outro cara me disse pra fazer uma festa. Muita carne, cerveja e truco. Se possível, mulher pelada no pole dancing e uma tevê de 42 polegadas com Winning eleven. “Pessoal não lê”, sentenciou, “tem que chamar de algum jeito”.

Discordo da fulana, do beltrano e do “Entre na roda”. Se você tratar a pessoa como uma débil mental, ela vai adorar.
Não vou pintar um círculo no chão e mandar os escritores correrem. Não esses escritores.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Correios

Enviados Factótum e Hollywood.
Factótum é sujeito rodado, partiu para sua terceira relação. Já Hollywood é moça de família e foi para sua primeira experiência, depois de muita conversa e promessas vazias de amor eterno.
Juízo.

"Entre na roda", parte II

Numa antecâmara, havia empadas e pedaços de bolo de chocolate com cenoura pra mulherada encher o bucho e ficar arrotando durante a palestra. Elas avançavam nas bandejas como se estivessem há quarenta anos no deserto à base de maná. Um espetáculo para os sentidos.
Hora da palestra. Uma bedel tocou as distintas senhoras para o local.
Lá, um velho esquisito, mistura de Paulo Freire com Gandalf, fez as apresentações.
— Bem, obrigado a todos e a todas por comparecerem aqui hoje. É uma satisfação blábláblá e um imenso prazer blábláblá no nosso país, onde a literatura blábláblá e a educação blábláblá. Obrigado.
Em seguida, a representante da Volkswagen, “parceira” no projeto.
— Bom, antes eu gostaria de agradecer à presença de vocês, ao Gandalf e blábláblá. A Volkswagen vem atuando há trinta anos blábláblá com sustentabilidade blábláblá nessa iniciativa tão importante. Obrigado.
Finalmente, uma mulher de cabelos grisalhos, espécie de Bruxa do 71, representante de uma sigla qualquer.
— Obrigado a vocês, ao Gandalf e ao boneco de ventríloquo da Volkswagen. Bem, ler é uma viagem, e...

...e foi isso. O resultado sairá em janeiro. Os contemplados farão um curso e receberão um baú de livros, cortesia da Volks.
Um curso com um ano de duração, dividido em oito “oficinas presenciais” de oito horas, e um baú com cem títulos infanto-juvenis. E isso em busca de quê, mesmo?

OBJETIVOS

▪ Formar educadores e voluntários para desenvolver rodas de leitura.
▪ Estimular o prazer pela leitura e ampliar capacidades leitoras por meio do trabalho sistemático com diferentes portadores e gêneros textuais.
▪ Ampliar o universo cultural de crianças, jovens e adultos.
▪ Fortalecer a parceria entre unidades educacionais e comunidade, na perspectiva da educação integral.
▪ Conhecer e valorizar a cultura local.

Ah, tá.


— Hehehe...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

"Entre na roda", parte I

Dia desses, recebemos um convite. O título era sugestivo: “Entre na roda”. Hum, o que viria a ser? Um batizado de capoeira? Uma roda de samba com cerveja e porção de calabresa acebolada? O novo filme do Alexandre Frota com a Bianca Soares?

— Adorooo!...

Nada. O buraco era mais embaixo: um tal PROGRAMA SÃO PAULO UM ESTADO DE LEITORES convidava a todos para a apresentação do seu curso de capacitação de orientadores de leitura. Todos estavam convidados, todos. Bibliotecários, professores, voluntários, amantes da boa literatura, o cobrador do ônibus, a tia que vende Yakult, todo mundo.
No dia em questão — segunda-feira passada, ontem —, assim que saí da estação Luz estranhei uma fila de mulheres. Eram muitas, grande parte acima dos quarenta, a maioria feia, todas malvestidas. Batata: era a fila de entrada para o curso. Postei-me atrás de uma senhora muito distinta, uma mistura de Hebe Camargo com Nair Belo e Amy Winehouse, e esperei.

— A Estação da Luz é um esplendor, não? E o Museu da Língua Portuguesa? Divino, divino. E o dog prensado daquele rapaz ali? Que espetáculo para os sentidos!




— Hehehe...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Vox populi

EU E O MISTO-QUENTE
Por Elaine Orio

Já tinha lido uns contos do Bukowski, mas Misto-quente foi o primeiro romance dele que li.
Comecei em casa, num sábado ou domingo de manhã (sei lá), crente que encontraria toda a putaria desenfreada dos contos.
Nada de putaria.
Até aí, tudo certo. Afinal, tratava-se da infância do querido Henry Chinaski.
Passei a ler todos os dias, durante o percurso casa-trabalho/trabalho-casa, um trajeto de duas horas, mais ou menos. Enquanto isso, nosso Henry crescia... primário, colegial, faculdade e, finalmente, TRABALHO.
Terminei a última página em casa, era domingo à tarde. Mais uma manhã de segunda-feira com Chinaski no metrô e, provavelmente, hoje estaria desempregada.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Vox populi

Entrevista com o leitor de Factótum.

LUAR NA LAJE: Depois de Factótum, sua opinião sobre literatura mudou? Afinal, ler é tão importante como dizem?
O LEITOR: O enredo não me agradou. Não trouxe nenhuma informação e terminou sem qualquer lógica. Minha vida tem histórias mais aproveitáveis. Estou sendo realista.
LUAR NA LAJE: Então, a literatura deveria educar as pessoas?
O LEITOR: Não apenas informar, mas também como curtição. Que nem um bom filme.
LUAR NA LAJE: Você leria outro romance do Bukowski?
O LEITOR: Não. Como disse antes, não tem adrenalina nem passa informação. Leria outro livro mais interessante, como Quem mexeu no meu queijo?.
LUAR NA LAJE: Recomendaria o Bukowski para alguém? Um moleque de 15 anos? Uma mulher, talvez?
O LEITOR: Não. As histórias dele não são recomendáveis. Elas falam de putaria, brigas e bebidas. O personagem fica pouco tempo nos empregos, não possui trabalho fixo. Recomendaria um rap com boas ideias.
LUAR NA LAJE: Você trabalha com rap nacional, certo? É DJ?
O LEITOR: Trabalho com música em geral.
LUAR NA LAJE: O que você diria para alguém que não escuta rap por ser uma música limitada às favelas, crime e maconha, que quase sempre trata as mulheres como putas?
O LEITOR: Nem todo rap passa essa mensagem. Porém, os que o fazem reproduzem a realidade. E desconheço rap que trata mulher como puta, a não ser aquelas que realmente são putas.
LUAR NA LAJE: E se o sujeito dissesse que o rap é a voz dos excluídos, das pessoas cujas oportunidades foram negadas pela sociedade? Pessoas que, às vezes, buscam esquecer a realidade na companhia de uma garota ou de um baseado. Você concordaria?
O LEITOR: Sim. O rap é a voz dos mais fracos, que sofrem as consequências do desemprego, que perdem a cabeça e ingressam no mundo do crime e das drogas. O rap apenas narra essa situação, em defesa da igualdade. Eu vivi uma vida igual a do Bukowski, ou pior. E muitos viveram, e vivem, vidas piores ainda. E todos procuram maconha, álcool ou drogas mais pesadas para fugir da realidade. Quantos anos o personagem do Bukowski tinha no final do Factótum?
LUAR NA LAJE: Segundo a Wikipédia, 24 anos.
O LEITOR: Então, a história tem sequência?
LUAR NA LAJE: Tem. Ela começa no Misto-quente, vai pro Factótum e depois segue no Cartas na rua, Mulheres e Hollywood.
O LEITOR: Certo. E ele continua trepando com um monte de mulheres, bebe o dia todo e é demitido de dezenas de trabalhos? E, depois, senta e escreve sobre isso?
LUAR NA LAJE: No geral, sim. Não existe redenção.
O LEITOR: Aqui na periferia, a maioria não ia gostar de ler um livro desses, em que o cara apenas conta sua história de vida.
LUAR NA LAJE: O que seria interessante, então?
O LEITOR: O pessoal leria livro sobre como ganhar dinheiro, como sair do sofrimento. Um livro como Cidade de Deus. Acredito que isso chamaria atenção.

Carta

Depois de vinte dias em coma, “Luar na laje” retorna às atividades. Muita água passou por debaixo da ponte. Não compareci ao II SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE BIBLIOTECAS PÚBLICAS E COMUNITÁRIAS, nem ao tão esperado II FÓRUM PRAZERES DA LEITURA. Tive que me contentar com os prazeres do puteirinho de trinta reais da Lapa de baixo, mesmo. Herbert Richards morreu. Comprei um Nintendo Wii e, agora, passo o dia inteiro jogando Super Mario Galaxy. A literatura que se foda.
Continua a via-crúcis para que Mas não se matam cavalos? seja devolvido.

— Alô.
— Oi, boa tarde. Estou ligando da biblioteca. É que você está com um livro nosso.
— Ô, com certeza. Mas pode deixar que amanhã mesmo vou colocar no correio. Afinal, vocês tiveram esse carinho de pensar em mim, pô, sem palavras.
— Poxa, obrigado.
— Obrigado eu.

— Alô.
— Oi, boa tarde. Estou ligando da biblioteca... Alô?

— Alô.
— Oi, boa tarde... Alô?

— Alô.
— Oi, boa... Alô?

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Vox populi

Há uma semana ou duas — sei lá eu —, foram-nos enviadas perguntas por parte de um leitor curioso. Desses que, quando garotos, engatinhavam pelo corredor pra grudar a orelha na porta dos pais e escutar os velhos transando. Uf, uf, uf.
Demorou — assembleia da ONU, eleições afegãs, o veado do Caetano —, mas aqui estão as respostas.
Fé em deus.

PERGUNTA
Sobre o público-alvo:
a) quem era o público-alvo inicial.
b) quem acabou se tornando o público-alvo.
c) características básicas: idade, profissão, gênero, endereço.
d) quanto do público-alvo eram pessoas conhecidas.
RESPOSTA
a) “Luar na laje” é como puta velha bêbada: aberta a todos. Mas há a vontade de levar literatura para aqueles sem grandes chances de entrar no country club.
b) uma gente meio deslocada, porém com educação e hábitos de leitura.
c) acima de dezesseis anos. Crianças não são o foco do “Luar na laje”. “Luar na laje” caga e anda para o futuro do país.
d) todos desconhecidos, e esperamos que continuem assim.

PERGUNTA
Quantos dos livros enviados não foram lidos?
RESPOSTA
Oito livros emprestados, três devolvidos intactos. Isso porque todos, teoricamente, foram informados das condições de empréstimo e prazos estabelecidos.

PERGUNTA
Qual a estratégia de divulgação do site?
RESPOSTA
Nenhuma. Muita vela preta e vermelha em sexta-feira de lua cheia.

PERGUNTA
Quem idealizou isso? Quais os interesses? Quem investe no “Luar na laje”?
RESPOSTA
As mesmas pessoas responsáveis pelo Seja.Sinta.Saiba.. A vontade é criar focos de leitores em áreas consideradas estéreis, nadar contra a maré e colocar no rabo de muita gente que não vale grande coisa.
Ninguém investe no “Luar na laje”. Pagamos dos nossos bolsos.

PERGUNTA
O que acham dessas perguntas?
RESPOSTA
Sei lá, porra.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Vox populi

A última semana foi intensa. Puro pancadão. Convidado para uma assembleia extraordinária da ONU sobre nanotecnologia e aquecimento global, depois observador internacional nas eleições do Afeganistão, por fim tentativa de atentado contra Caetano Veloso, essa frustrada. Nem tudo são flores na vida.
Mas é com gáudio que informamos a devolução de Pulp. Voltou um pouco baleado, é verdade. O envelope no final quase foi arrancado, fato que nos obrigou a uma restauração mambembe. De resto, tudo em ordem.


Homem de vanguarda, o leitor emitiu sua opinião de forma sutil no marcador de livro egípcio.
Peguem as lupas.