É bonita a capa do Misto-quente. O desenho do Robert Crumb não tem picas a ver com o enredo, mas tudo bem. Um bêbado em fim de carreira brigando com um travesti (olha o tamanho do pé) por causa de um telefone. O editor — que, como bom editor, não lê o que publica — pensou: “Bukowski? Põe uma garrafa de uísque na capa, cinzeiro, essas merdas. Ou coloca qualquer coisa do Crumb, Bukowski é associado com Crumb. Agora, dá licença que tenho que coçar o cu e cheirar”.As cores ficaram bonitas. Vermelho, preto e branco.
— Só.
O que pode ser pior do que crescer nos Estados Unidos da recessão pós-1929? Ser pobre, de origem alemã, ter muitas espinhas, um pai autoritário beirando a psicopatia, uma mãe passiva e ignorante, nenhuma namorada e, pela frente, apenas a perspectiva de servir de mão-de-obra barata em um mundo cada vez menos propício às pessoas sensíveis e problemáticas. Esta é a história que é sem dúvida uma das obras mais comoventes e mais lidas de Charles Bukowski (1920-1994).
Verdadeiro romance de formação com toques autobiográficos, Misto-quente (publicado originalmente em 1982) cativa o leitor pela sinceridade e aparente simplicidade com que a história é contada. Estão presentes a ânsia pela dignidade, a busca vã pela verdade e pela liberdade, trabalhadas de tal forma que fazem deste livro um dos melhores romances norte-americanos da segunda metade do século 20. Apesar de ser o quarto romance dos seis que o autor escreveu e de ter sido lançado quando o autor já estava com mais de sessenta anos, Misto-quente ilumina toda a obra de Bukowski. Pode-se dizer: quem não leu Misto-quente, não leu Bukowski.
Belo texto. Enaltece o romance sem aqueles adjetivos hiperbólicos da Estação Liberdade (“obra fundamental de magnitude sísmica”) e, pasmem, indica que o responsável leu o livro. Inteiro!
E olha que são mais de trezentas páginas.
Factótum, o livro lido aos quarenta e cinco do segundo.
Misto-quente, manuseado por mãos femininas hidratadas com Natura.
O senhor das moscas, cujo leitor, no melhor estilo Pôncio, se eximiu de comentar.









